O que é o evangelho?
No fundo, eu só tenho esta única mensagem para entregar.
As narrativas conservadoras e progressistas.
Há dois projetos de felicidade que definem algumas das narrativas mais comuns no discurso público: o conservador e o progressista. Você provavelmente chegou aqui influenciado por alguma dessas narrativas e ambas, embora pareçam ser inimigas, tem um fundo em comum que fazem ambas fracassadas. Aquilo que jaz na raiz do fracasso de ambas é aquilo contra o que temos que começar lutando: autonomia humana.
O primeiro projeto é aquele que entende que a felicidade humana é oriunda da devoção aos princípios, valores e virtudes históricos que vem de fora de nós. Aprendemos na igreja, na família, com pessoas que admiramos que é preciso ser boa gente na vida, gente de caráter. Assim, se você se esforçar em desenvolver um conjunto de virtudes como honestidade, força, coragem, sabedoria, riqueza, você provavelmente será capaz de construir uma vida feliz.
As coisas dependem basicamente do seu esforço pessoal. O mundo é um lugar desafiador onde você tem que batalhar para conquistar o que é seu. Não há almoço de graça. Por isso, há muita gente que nem usa a palavra felicidade, antes fala de dever. Ao homem compete não ficar buscando felicidade, mas fazer aquilo que é do seu dever. Mas isso é só mais um projeto de felicidade disfarçado. Em última instância, você faz aquilo que é do seu dever porque, no fundo, isso lhe fará mais feliz.
Por vezes, esse projeto de felicidade toma contornos mais sofisticados. A construção de uma vida humana digna e admirável envolve um esforço na compreensão das virtudes históricas. Ele pensa que deve se educar nos grandes livros e argumentos, e aprender o modo correto de viver, que não foi inventado por ele, mas exposto pelas mais excelentes figuras da humanidade. Uma vez absorvida a vida ideal, em geral constituída de coragem e autocontrole, sobriedade e força, família e exercícios espirituais, ele impõe sobre si um esforço industrioso de aplicar o que aprendeu. O esforço, ele crê, é o martelo que esculpe a matéria impura da sua vontade carnal.
Do outro lado da moeda estão os progressistas. Para eles, não há sentido em buscar para além de si formas de vida pré-estabelecidas. Cada qual define por conta própria o caminho da sua vida. Ninguém tem, em princípio, direito de ditar para quem quer que seja qual é o caminho que devemos seguir: essa responsabilidade e esse direito é de cada um.
Assim, a vida é gasta numa espécie de experimentalismo que geralmente toma a forma de uma política de tentativa e erro baseada nos bons sentimentos. Você experimenta algo, impulsionado por um ímpeto de liberdade pessoal que dispensa amarras sociais, e se aquilo te trouxer bons sentimentos e pouco dano, você o integra no rol de elementos que fazem parte da sua vida.
O único peso é o de decidir por conta própria os seus valores, princípios e destino. De resto, a vida se gasta em experiências prazerosas como sexo, substâncias químicas, amigos que lhe fazem sentir bem, não importando tanto assim a sua índole, espontâneidade, decisões feitas no calor do momento. Nada é proibido, exceto proibir a liberdade alheia.
Apesar da diferença de superfície, ambas as propostas têm entre si um elemento em comum: colocam sobre a capacidade humana o poder de construir, por conta própria, os caminhos da felicidade. O conservador pretende construir sua vida ideal com seu esforço na aplicação de virtudes que lhe são externas, o progressista, na aplicação de valores que ele mesmo descobriu: ambos concordam que, em última instância, construir sua vida ideal depende quase que integralmente de si mesmo.
Um dos elementos mais importantes dessa nossa jornada é compreender que o fundamento das nossas vidas não pode ser derivado de nós mesmos, qualquer que seja a opção inicial, seja progressista ou conservadora, que nos pareça a mais acertada. O que é fundamental na vida humana, fundamento absoluto de qualquer construção existencial é concedido, herdado e não conquistado.
As boas novas de Jesus Cristo.
Quem entendeu esse elemento foi Jesus Cristo. Uma de suas biografias mais antigas, o evangelho de Marcos, conta que Jesus começou um movimento de pregação itinerante cuja mensagem síntese era: “‘O tempo é chegado’, dizia ele. ‘O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!’” (Mc 1.15)
Jesus apareceu anunciando o que chamou de “boas novas” ou “boas notícias”, que é o que chamamos de evangelho. A palavra, no contexto cultural romano, queria dizer o anúncio de um acontecimento depois do qual as circunstâncias da vida se transformam radicalmente. Por exemplo, o nascimento de um novo imperador, a vitória do exército sobre o inimigo. Mas, para além do contexto romano, a palavra tinha um significado muito mais profundo para o povo Judeu para quem Jesus estava pregando, em especial pelo uso da palavra “Reino de Deus”. A boa notícia envolvia o fato de que o Reino de Deus estava chegando. E o que é esse Reino de Deus?
O Reino de Deus.
O reino é o governo de Deus sobre o universo. Deus é criador, o que lhe dá autoridade sobre a totalidade da existência - eu e você inclusos. A narrativa em Gênesis deixa clara sua autoridade. Ele dá um comando ao universo: “haja luz” e cada partícula lhe responde “sim, Senhor”, aquecendo-se e gerando luminosidade.
Se Deus é rei, os homens são súditos sujeitos à sua lei. Todavia, o direito pleno de autoridade é recusado pela humanidade. Rejeitando sua soberania, os homens decidem fazer suas próprias leis vivendo autonomamente, como numa espécie de revolução política. “Abaixo ao rei do universo, a vida é minha e vivo como quiser”, gritaram.
O resultado da revolução é um reinado fracassado. O governo dos homens produziu assassinatos, guerras, escravidão, rivalidade, mentira, perversão sexual; em suma, produziu injustiça. Produziu sobretudo escravidão política: Israel era um povo cativo: primeiro da Babilônia, depois da Pérsia, dos Gregos, dos Romanos. O povo de Israel, a quem Deus se apresentou mais diretamente, tornou-se escravo sobretudo do seu desejo de autonomia e agora se arrependia de um dia desejar viver por conta própria. Pediam a volta de Deus, para derrotar os ditadores que os escravizam e estabelecer a paz no mundo.
Chega Jesus Cristo e diz a todos os Judeus: “O reino de Deus está próximo!” Em outras palavras, dizia: “está chegando o tempo em que vocês serão todos libertos da escravidão e o próprio Deus virá como governador do mundo. Nesse dia, toda violência e perversão, todo choro e aflição terá fim.” A notícia chegou-lhes como fogos de artifício, como uma aurora boreal tomando os céus. Finalmente, Deus derrubará o império romano e se sentará como rei, certo?
Errado. Jesus entendia que toda tirania política: a egípcia, babilônica, persa e romana pela qual o povo hebreu foi submetido tinha raízes no coração dos homens. Antes de qualquer governo civil, era preciso estabelecer o governo coracional. O interior dos homens precisava ser reformado e a autonomia dantes, substituída pela sujeição ao rei verdadeiro: Jesus Cristo. Esta é a inauguração do reino de Deus.
Mas seria só isso? Deus deixaria seu povo vivendo à mercê da maldade política e social dos homens para sempre? Não. A compreensão de Jesus parece ser que o reino proclamado viria em fases: primeiro os homens deveriam se submeter individualmente a Deus, que lhes perdoaria as injustiças, depois, Deus insurgiria novamente na história estabelecendo plenamente seu reino - e aqueles cuja injustiça não foi abandonada na forma de confissão e sujeição a Jesus, seriam julgados e erradicados a fim de estabelecer novamente paz na terra de Deus.
A alegria amorosa do Deus Trino.
O anúncio do Reino do Deus que voltava para governar o universo, todavia, não soa bem aos ouvidos contemporâneos. Um Deus que volta para mandar pode parecer uma espécie de tirano sedento por poder, alguém cujas vaidades o movem a mandar, mandar e mandar, cuja natureza do relacionamento conosco se resume a impor suas preferências arbitrárias. Nada disso parece convidativo até que entendamos a verdadeira natureza desse Deus: ele é um relacionamento de amor.
Deus existiu por toda a eternidade sem nenhum humano para lhe obedecer. A eternidade é um longo tempo, o que deveria nos fazer pensar que ele não tem necessidades e ímpetos compulsivos de se impor, dominar, mandar, mas de fazer algo diferente. O que quer que ele estivesse fazendo por toda a eternidade antes de criar o mundo certamente lhe caracterizam muito mais do que qualquer impressão parcial que temos dele a partir de uma ou duas palavras.
Que então fazia Deus por toda a eternidade? Jesus Cristo nos dá uma pista disso quando, no evangelho de João, ele diz: “Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste porque me amaste antes da criação do mundo.” (Jo 17.24)
Jesus começa com algo extremamente carinhoso: “Pai”. Para Jesus, Deus não era uma entidade distante, abstrata, conceitual ou filosófica. Era parte da sua família, a quem poderia se dirigir com intimidade. O que, todavia, é um Pai? Um pai é fundamentalmente uma fonte, aquele que concede a vida, aquele que nutre. Jesus via no Pai uma fonte eterna de vida. “[...] amaste antes da criação do mundo”. O que Deus Pai fazia por toda a eternidade para com seu filho Jesus Cristo era amá-lo. Ser fonte eterna e abundante de vida e amor para com o filho.
Assim, o Deus e Pai do Deus filho Jesus Cristo nutria com ele uma relação eterna de amor e doação, de entrega. O que marca a relação interna da Trindade é doação, entrega, generosidade: tudo isso no tempo antes do tempo. Deus não precisava de nós para mandar porque tinha desde antes que o mundo fosse mundo algo mais precioso e significativo do que qualquer poder pode conceder: amor eterno.
Não apenas isso, mas este se trata de um amor marcado por uma profunda alegria. Em Provérbios, um dos livros de sabedoria hebraica, há um momento muito interessante em que a própria Sabedoria aparece personificada e fala sobre a sua relação com o Deus criador, Deus Pai. Depois de explicar que esteve envolvida em todo o processo de criação do universo ela diz algo tão significativo! Veja só: “eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto; dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença. Eu me alegrava com o mundo que ele criou, e a humanidade me dava alegria.” (Pv 8.30–31). Alguns comentadores dizem que essa Sabedoria personificada é o próprio Jesus Cristo no Antigo Testamento. Algumas evidências disso estão no fato de que o relato de criação no Gênesis fazem da criação um processo que foi operado através da palavra de Deus, que contém sua sabedoria, e o apóstolo João, em seu evangelho, faz questão de dizer que a Palavra, o Verbo, estava no princípio com Deus e “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; sem ele, nada do que existe teria sido feito.” (Jo 1.3). Para João, o Verbo é Jesus.
Agora note o que o texto deixa claro a respeito dessa Sabedoria e do seu processo de criação junto a Deus Pai: “eu era o seu prazer, eu me alegrava continuamente com sua presença, eu me alegrava com o mundo que ele criou, eu me alegrava com a humanidade.” O processo da Criação do mundo foi marcado por uma alegria profunda entre Pai e Filho! Não havia um desejo sanguinário por mandar, uma estrutura ordenada para dominar: havia apenas um divertimento, uma satisfação mútua, uma alegria profunda e que envolvia a humanidade!
Juntemos as peças do nosso quebra cabeça: um Deus trino em que as pessoas se amam generosamente por toda a eternidade decide criar e, enquanto o faz, está sorridente em todo o processo. Que Deus é esse? É o Deus que já é feliz e que tem prazer em compartilhar dessa alegria, bondade, amor e generosidade com aquilo que estava criando. Deus é um relacionamento amoroso, generoso e alegre que deseja incluir cada vez mais pessoas dentro de si. Por isso, ele cria.
Pense naquele seu amigo que você sabe ser muito generoso. Imagine-o em uma festa, alegre, divertindo-se, satisfeito e feliz, até que vê alguém conhecido deslocado no canto da festa. O que ele faz? Ele puxa o solitário para fazer parte da roda! É próprio da sua generosidade fazê-lo. Ele quer que todo mundo participe, ele quer uma comunidade alegre. Esse é o Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
Vemos isso no próprio comportamento de Deus nas primeiras cenas do Gênesis. Conta-se que ele vinha ao entardecer “andar” conosco. Andar, aqui, é um hebraísmo para se relacionar, ter comunhão, aliança, estar junto. Deus desejava estar conosco!
O que deu errado?
Não foi suficiente para nós. O relato em Gênesis conta que a serpente aparece a Eva ofertando a ela comer do fruto do conhecimento do bem e do mal. A narrativa toda mostra a insídia da serpente de modo que não temos tempo para elaborar aqui, mas que faremos em tempo oportuno.
Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal significa decidir por conta própria o que é o bem e o mal para a nossa vida. Significa um desejo, provindo do coração, de autodeterminação, de autonomia de Deus. Andar com Deus, viver em comunhão alegre com ele significava entrar numa relação cujos termos já estavam definidos pela própria natureza dos seres. Deus é totalmente sábio, totalmente amoroso e totalmente rei. Isso significa que ele sabe o que é melhor para nós, ele quer o melhor para nós porque nos ama e tem o direito de exigir, como um Pai tem direito de exigir dos seus filhos, que nós sigamos as suas orientações.
Nós decidimos não confiar em Deus e sim em nós mesmos. Amar mais a nós mesmos que amar a Deus. Comer da árvore significa dizer a Deus: “você não sabe o que é o melhor para mim, sou eu mesmo que sei, sou eu quem vou decidir meus caminhos, meus valores, minha vida, eu sou meu rei, meu soberano, meu governador.” Comer da árvore do conhecimento do bem e do mal significava declarar guerra a Deus, começar uma revolução contra o seu reinado, levantar armas contra Deus. Comer da árvore era pecar. E o pecado tem severas consequências.
Pecar significa abandonar a Deus e a lealdade a ele. Nós não deixamos de ter uma natureza profundamente dependente de algo exterior a nós. Fomos feitos para depender de algo, mas abandonamos a Deus. Agora nós continuamos dependentes mas não temos mais a Deus. O que fazemos então? Nós nos apegamos a qualquer coisa que pareça boa nesse mundo e passamos a depender quase que exclusivamente dessa coisa. Para Eva, esse foi o fruto, para nós, é qualquer outra coisa que brilhe.
Ao longo da história os homens se apagaram ao poder, e iniciaram homicídios, massacres, combates e guerras para manter seu poder. Outros se apegaram aos prazeres sensuais, e mentiram, manipularam, usaram, abusaram e estupraram no processo. Outros se apegaram à riqueza, roubaram, extorquiram e oprimiram.
Cada um de nós tem envolvimento nesse regime corrupto. No centro do nosso coração há uma rejeição intensa da ideia de que Deus determine o nosso caminho novamente, mesmo que ele seja mais sábio, mais amoroso e digno de obediência. Queremos nós mesmos sermos os nossos próprios deuses.
Qual tem sido o resultado? O mesmo da história da humanidade. Nós roubamos, mentimos, usamos, abusamos, exploramos, acumulamos com egoísmo, nos recusamos a ajudar, vivemos com egoísmo, mesmo que isso custe sofrimento àqueles ao nosso redor. No tribunal de Deus, nenhum de nós passa, todos nós somos culpados.
Isso porque Deus não é só amoroso, mas justo e santo. Por santo, queremos dizer alguém que é tão puro que não pode nem mesmo olhar para o pecado. Quanto melhor alguém é, mais intolerante ela é com o mal. Quanto mais se ama uma criança, mais ira se tem daqueles que fazem mal a ela. Por justo, queremos dizer que Deus não deixará impune nenhuma maldade cometida.
O que você diria de um Deus que vê a maldade do mundo e simplesmente deixa que ela passe impune? Bem, talvez você queira que Deus ignore os seus pecados. No entanto, quando os outros lhe fazem mal, quando lhe roubam, quando lhe manipulam, quando lhe usam e exploram, você é o primeiro a desejar uma justiça cósmica sobre suas cabeças. Deus não é parcial. A justiça cósmica que você deseja sobre aquele que lhe faz mal é a justiça que Deus deve exercer sobre todo ser humano, porque não há ninguém que seja inocente, inclusive você.
A Bíblia descreve um Deus que se ira profundamente contra a maldade do mundo. Sua ira, todavia, não é senão fruto do seu compulsivo amor pela humanidade. Deus tem um zelo, um cuidado, um apreço infindáveis pela sua criação. Isso significa que quando alguém a faz mal ativamente, quando abusam dela, quando lhe retiram a dignidade, Deus se enfurece contra o malfeitor e se levanta contra ele com o desejo de pôr fim à maldade. Todos nós já tomamos parte nesse processo. Todos nós fazemos parte do mal do mundo. Todos nós fizemos com que a ira de Deus se levantasse contra nós que, voluntariamente, ao escolher egoisticamente o que era melhor para nós, agredimos a criação de Deus.
A palavra de Deus afirma que o pecado entrou em nós de forma totalmente abrangente. Cada área da nossa vida foi afetada e, por consequência, nenhuma ação se encontra destituída de pecado. Nossos pensamentos, nossas ações, nossas omissões, nossos sentimentos, nossos projetos e até mesmo as nossas melhores ações estão cheias de pecado. A nossa justiça, diz o profeta, é trapo de imundícia: expressão usada para descrever os panos que continham a menstruação das mulheres, considerada algo que retirava a pureza da mulher. A nossa própria justiça nos contamina.
Seja sincero com você mesmo, até nas suas melhores ações se encontram intenções egoístas, desejos de manipular, mentiras, omissões, dissimulações, consequências negativas, modos corruptos de conduzir as ações. O que fazemos de melhor é permeado de pecado.
Não há nada que podemos fazer quanto a isso. Não podemos apagar ou remediar o mal que foi feito. Ele é por demais abundante, por demais abrangente, por demais profundo. Mesmo que parássemos de pecar agora, o que seria impossível, todo o histórico da nossa vida já nos condenaria diante de Deus.
A consequência, nessas condições, é que todos nós estamos debaixo do juízo de Deus e, no seu tribunal, sem uma intervenção, nenhum de nós escapará da consequência: separação eterna da presença de Deus.
Deus age para nos salvar
Depois de elaborar esses aspectos temos uma imagem complexa de Deus. Por um lado, ele é profundamente generoso, inclusivo, desejoso de nos ter próximo dele. Ele é amor a tal ponto que nos criou precisamente para estar conosco. Por outro, os nossos pecados fizeram separação entre nós e ele, de modo que, na sua justiça, alguma compensação precisa ser realizada.
A Bíblia dá diversas indicações de que a única compensação possível é a morte do pecador. No jardim do Éden, após expulsar Adão e Eva, Deus colocou na porta de entrada um querubim com uma espada flamejante. Espadas, na Bíblia, tendem a significar a justiça, e o que uma espada faz é muito claro. A justiça se exerce pelo pendor da espada sobre a cabeça do pecador.
Quando Deus manda que construam um templo para habitar no meio do povo, este era dividido em três áreas: o pátio externo, o lugar santo e o lugar santíssimo. Deus habitava neste último e ninguém poderia entrar nesse lugar exceto o sumo sacerdote, uma vez por ano, para pagar pelos pecados do povo. Ao entrar, ele vinha trazendo o sacrifício de um cordeiro que, ao ser morto, simbolizava a necessidade de um sacrifício para que se pudesse estar na presença de Deus.
Esse fato faz uma das cenas dos evangelhos o nosso primeiro toque de esperança. Quando João Batista, um profeta judeu começou a pregar na época de Jesus, conta-se que na primeira vez que o avistou declarou para todos ouvirem: “Vejam! É o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29).
A imensidão dos nossos pecados não foram suficientes para suplantar e impedir as profundezas do seu amor por nós. O discípulo de Jesus nos conta, na Palavra de Deus, que aquela Palavra através da qual Deus criou o mundo, que era o próprio Deus e estava com Deus no princípio nasceu em forma humana e veio habitar conosco aqui na terra. O Deus que desejava andar com Adão e Eva veio andar conosco. Mas dessa vez, numa condição diferente: éramos pecadores, recusamos a Deus, tínhamos iniciado uma revolução que merecia a morte. Deus vem andar ainda sim no meio dos seus inimigos. E o que ele faz?
Ele vem trazendo o Reino de Deus. Ele vem revertendo os efeitos do pecado no mundo. Ele vê a miséria dos doentes que assim estavam por causa dos pecados e começa a curá-los, inaugurando aquele tempo em que Deus mesmo estava tomando conta do mundo. Ele vê a população perdida e sem direção porque, na sua arrogância autônoma se perdeu, e passa a lhes ensinar novamente o caminho da vida. Ele olha para os pecadores socialmente mais rejeitados, e os trata tão bem, com tanto amor, que se conta que eles frequentemente se reuniam ao seu redor e desejavam a sua presença. Ele olha para as multidões cheias de fome e lhes dá de comer. Ele vê os homens possessos por demônios, com a vida desgraçada por espíritos malignos e os dá liberdade. Deus veio estar com seus inimigos, e começou a amá-los profundamente. Não lhes concede ira, mas serviço.
A imagem desse Deus é completamente desconcertante. Qualquer rei que entra em território inimigo começa a algemar, matar, prender, julgar e condenar. Jesus, o rei em território inimigo, começa a servir seus inimigos e, pouco a pouco, começa a conquistá-los. Infelizmente, não todos.
A elite religiosa de Israel não gostava de Jesus. Tinha inveja dele, julgavam que era pouco ortodoxo, e, nutrindo um grande ódio contra ele, conspira para matá-lo, o que de fato conseguem fazer. Jesus é preso, esbofeteado, cuspido, chicoteado, obrigado a carregar uma cruz, tem os pés e as mãos perfuradas, é asfixiado até a o último suspiro e, nas suas últimas palavras diz, “está consumado”.
Como assim? O Reino de Deus acabou? Pelo contrário: é assim que ele continuaria. Jesus é o cordeiro. Se era necessária uma morte, sangue derramado, para que a humanidade fosse perdoada, Deus mesmo, no seu incontrolável amor por nós, providenciou esse sacrifício. Deus Pai mandou a Deus Filho, que também voluntariamente decidiu vir, à terra para servir como um sacrifício no lugar da humanidade. Sobre esse sacrifício Deus exerceu toda a sua justiça, toda a sua ira contra o pecado. Deus considerou Jesus como se ele concentrasse em si toda a culpa da humanidade, e a puniu em Jesus, naquela cruz, aplicando sua justiça.
Se, para que a justiça fosse exercida, nós deveríamos sofrer separação de Deus, Jesus diz na cruz: “Pai, por que me abandonaste?”. Jesus sofreu como um representante no lugar da humanidade, para que a humanidade não precisasse receber a justa e terrível ira de Deus.
Jesus permanece morto por três dias, ao fim do quais ele ressuscitou, significando que Deus Pai aceitou sua morte como sacrifício e que a dívida estava, por fim, paga. É isso que quer dizer: “está consumado”. O grande problema da humanidade, sua separação para com Deus, terminou. Jesus resolveu esse problema.
Arrependimento e fé
Se voltarmos para a síntese da pregação de Jesus, lá no começo de Marcos, vemos que Jesus fala de “boas novas”, “arrependimento” e “crer”. São fenômenos que andam juntos. As boas novas de Jesus são que, agora, porque o sacrifício foi realizado, já não existe absolutamente nenhuma barreira entre nós e Deus. Ele fez o necessário para remover a nossa culpa, a inimizade que nós criamos com ele já não tem mais os mesmos obstáculos. Aquela comunhão alegre da Trindade agora nos é ofertada novamente. Deus está dizendo a toda a humanidade: “vem de novo! Vem participar comigo dessa alegria! Vem andar de novo comigo, eu quero você, eu fiz de tudo para que você estivesse comigo de novo! Vem estar comigo!”
Se essa mensagem fez sentido para você e Deus está agindo em você nesse momento, você deve estar começando a pensar diferente a respeito de Deus e a respeito de si mesmo. Você deve ter percebido que Deus é muito melhor do que você imaginava que ele é, mas também que você é muito pior do que você pensava. Você precisa entender que você é um pecador que precisa de salvação, essa salvação de Jesus. Talvez agora exista um ímpeto dentro de você para se voltar para Deus. Você pode estar olhando para a sua vida, vendo que andou distante de Deus e quer andar perto dele. Você pode estar entendendo que não pode mais determinar por conta própria os seus caminhos, mas precisa que Deus lhe oriente como seu Pai e Rei. E quer seguir por esse caminho. É isso o que as escrituras chamam de arrependimento. Arrependimento é começar a pensar diferente e corretamente a respeito de Deus e começar a se afastar dos seus antigos caminhos que você percebeu estarem errados. É isso que Jesus quer de nós.
Se isso não está acontecendo, e isso precisa acontecer, é a coisa mais urgente que precisa acontecer nessa vida, ore e peça para que Deus lhe conceda isso, revisite essa aula, leia as sugestões de leitura na descrição dessa aula até que isso comece a acontecer. Jesus promete não rejeitar nenhum dos que vem até a ele.
Mas ele também quer fé de nós. Isso quer dizer confiança nele e no que ele fez. Se você percebeu que andou pelo caminho errado e quer recomeçar seu caminho com Jesus, pode ter percebido também que quem você é torna impossível a sua reconciliação com Deus. E isso é verdade. Mas também é verdade que o próprio Deus fez tudo o que era necessário para que essa reconciliação acontecesse. Toda a dívida foi paga, toda a penalidade foi paga, não há nada mais a ser feito. Há só um convite: “vem viver comigo!”. A fé é confiar em Jesus quanto a isso. É reconhecer que você não tem nada a entregar a Deus para se salvar, mas que Deus é verdadeiramente um salvador, um salvador para você! Confie nele, tenha fé nele. Quando há arrependimento e fé, há também salvação.Ore confessando seus pecados, pedindo perdão a Deus e confiando na sua salvação.
Agora você é um amigo de Deus, um filho de Deus e começou sua jornada como aprendiz de Jesus. Siga-o!
Justificação pela fé e união com Cristo
Tudo isso é possível por aquilo que os teólogos chamam de Justificação pela fé e união com Cristo. O apóstolo Paulo escreve aos Gálatas dizendo: “sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado.” (Gl 2.16).
Paulo usa uma linguagem jurídica para descrever o processo de reconciliação de Deus com a humanidade. É como se Paulo estivesse falando de um tribunal e ser “justificado” significa receber do juiz uma sentença que o inocenta de toda a culpa. O argumento no texto é razoavelmente claro. Paulo diz que essa sentença no tribunal não é adquirida pela prática da Lei, que aqui significa a totalidade da lei do Antigo Testamento, mas pela fé em Cristo, ou pela fidelidade de Cristo.
Em outras palavras, não adianta procurar ajustar o seu comportamento moralmente para ser salvo. Se você ouviu a minha exposição bíblica sobre o pecado e começou a pensar: “tudo bem, sou um pecador, mas a partir de agora eu vou me consertar, vou trabalhar duro, não vou mais pecar e assim Deus vai me aceitar”, você está no caminho errado. Você não vai conseguir fazer isso porque para ser aceito diante de Deus é necessário perfeição moral. Deus é de uma santidade tal que ele não tolera um único pecado. Essa situação é devastadora para nós porque nos deixa completamente sem recursos. Não há nada a se fazer. Estamos condenados e sem meios de apelação.
No entanto, o texto também aponta claramente um meio pelo qual somos aceitos: “pela fé em Cristo”. Quando confessamos diante de Deus que somos pecadores, quando admitimos que não temos nenhuma desculpa e nenhum recurso, nenhuma boa obra para a apresentar, mas confiamos em Cristo quando ele nos diz que pode nos salvar, e depositamos toda a confiança para a nossa salvação em Cristo e nada além de Cristo, o texto diz que Deus, nesse exato instante bate o martelo e enuncia uma sentença sobre nós: “Você é justo! Inocente! Você é aceito por mim! Agora, você é meu filho!”
Como uma maravilha dessas é possível? Poucos versos depois, o apóstolo continua dizendo: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.” (Gl 2.20). A Bíblia contém um mistério difícil de explicar, um mistério encantador e verdadeiro: quando depositamos a nossa confiança em Cristo nós passamos a estar unidos com Cristo, a fazer parte dele, e ele, e ele a fazer parte de nós. Perceba que Paulo diz que foi “Crucificado com Cristo”, que ele já não tem mais uma vida dele mesmo, mas “Cristo vive em mim”. Pela confiança em Jesus, passamos a habitá-lo em uma união tão íntima que tudo aquilo que ele realizou em vida, nós realizamos também. Se Cristo morreu pagando a penalidade do nosso pecado, e estou unido a ele, eu morri também com ele naquele momento. Se Cristo foi perfeito moralmente e cumpriu toda a lei de Deus, eu também cumpri. Eu estou unido a Cristo, na vida e na morte, pela fé.
Então, na prática, toda a santidade de Jesus, toda a sua perfeição moral nos é “creditada” pela fé. E todos os nossos pecados são “creditados a Jesus”. Os teólogos chamam isso de dupla imputação. Imputar significa considerar alguém como responsável por algo. O que quer dizer que Deus nos considera como responsáveis pela perfeição de Jesus, e Jesus responsável pelo nosso pecado. Uma troca acontece. Como o apóstolo descreve em outro lugar: “Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus.” (2Co 5.21). Jesus foi considerado como pecador -- perceba a linguagem de união! -- para que nele nós fossemos considerados como justos diante de Deus. Tudo isso pela fé, de graça, sem nenhum esforço humano, sem nenhum mérito humano, Deus, do princípio ao fim, salvando a humanidade.
Chega de autonomia
Tudo isso significa que as tentativas de construir significado, bem estar, pacificação e, em última instância, uma vida feliz não é algo que depende de nós. O grande problema da humanidade não é a sua frouxidão moral, é um problema no coração humano que rejeitou a Deus; também não é a presença de regras e estruturas, das quais precisamos nos libertar, muitas delas são boas e feitas para o nosso bem. O grande problema da humanidade é que abandonamos a Deus para construir nossa vida com nossas próprias mãos. Deus, todavia, interviu na humanidade para restaurar aquilo que havia sido destruído, e tudo que pede de nós é confiança em Jesus, em sua obra.
Nossa vida, nossa felicidade, nossa identidade, nossa salvação: nada disso depende, em última instância, de nós. Meu convite de hoje para você é que você abandone a tentativa de construir sua vida por conta própria, abandone toda confiança em você mesmo, e passe a construí-la sobre o firme fundamento que é Jesus e sua obra. Confie nele e somente nele. Esse é o primeiro passo.





Belíssimo texto, professor! Onde posso encontrar as sugestões de leitura?